Prestar concurso público e ser aprovado é sempre uma feliz conquista, ainda que seja um certame para trabalhar temporariamente. Assim aconteceu em abril deste ano.
Polos lotados de concurseiros em todo o Brasil para as vagas de ACS, ACM e Recenseador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em maio, o resultado e, em julho, o treinamento eliminatório.
Camili Freitas prestou o concurso para trabalhar no 13º Censo do IBGE. De acordo com o material institucional do órgão, o Recenseador é a peça chave do Censo. Essa foi a função escolhida por Camili, estudante de 28 anos e moradora de Olinda, na região metropolitana do Recife.
Dificuldades pelo caminho
Os recenseadores são remunerados por produção. Ao concluir um setor censitário, que é uma área territorial subdividida para a realização da coleta de dados, o trabalho passa por uma supervisão e o pagamento é liberado.
Em geral, os setores são grandes em território ou em volume de moradores. Longos percursos para percorrer. Existem setores com mais de 800 casas e outros com uma média de 200 domicílios. O IBGE percorre todo o Brasil, inclusive as comunidades de povos tradicionais como indígenas e quilombolas.
O trabalho exige disposição física e preparação mental, além de estratégias de agendamentos, coordenadas geográficas, comunicação com o ambiente central do IBGE e com o posto de coleta.
Tudo isso, seguindo um rigoroso código de conduta, sem direitos celetistas como passagens e alimentação. Pessoas de todas as idades entraram com o propósito de servir ao país, uma contribuição que não tem preço. A maioria ficou motivada a estudar para seguir encarando novos desafios, até conseguir se colocar no serviço público de forma efetiva.
No entanto, a desmotivação veio logo no início. Assaltos, péssimo tratamento por parte da população, denúncioas de assédio sexual contra mulheres e a própria ignorância de quem nunca ouviu falar sobre a importância da pesquisa do Censo.
Detalhes que colaboraram para um grande volume de desistências em várias cidades, principalmente por parte das mulheres.
Inicialmente atraídos pela flexibilidade de horários e uma forma de cálculo de remuneração aparentemente justa, os recenseadores encontraram muitos motivos para desistir. Alguns encontraram dificuldades com o equipamento, o Dispositivo Móvel de Coleta (DMC), que trava durante as entrevistas com risco de perder tempo e de o morador não aceitar mais responder ao questionário.
“O meu DMC travou muito na primeira semana. Mesmo que o supervisor queira ajudar, tecnicamente ele não pode fazer muita coisa. Os moradores são muito resistentes, alguns têm medo de perder benefícios assistenciais do governo e se sentem prejudicados”, relata Camile.
Os trabalhadores do IBGE encaram desafios enormes pelas ruas, como a desconfiança e os julgamentos. Com razão, a população se sente insegura. Outro problema é a falta de divulgação na mídia para conscientizar a população de que a pesquisa pode trazer resultados satisfatórios para a sociedade como um todo.
Na qualidade de servidores públicos federais, os recenseadores e supervisores precisam educar a população sobre o que representa o Censo e lidar com a realidade que encontram dentro da casa das pessoas, como a falta de meios básicos para sobreviver.
“Falei para o meu supervisor que as pessoas mais pobres pensam que eu cheguei com a solução da própria fome, mostram documentos pensando se tratar de atualização cadastral para receber Bolsa Família. Isso nos faz refletir muitas necessidades de qualificação, educação básica e dignidade que falta em muitas casas. Outras casas nem deveriam ter esse nome, porque são barracos de madeira com exposição ao calor, frio e insetos”, relata outra recenseadora.
O Censo do IBGE
De acordo com o site oficial do IBGE, “Conhecer em detalhe como é e como vive o nosso povo é de extrema importância para o governo e para a sociedade. Os resultados obtidos através da realização do Censo Demográfico permitem traçar um retrato abrangente e fiel do País.” O resultado de um censo demográfico reflete a realidade de um país. Através dele, é possível:
acompanhar o crescimento, a distribuição geográfica e a evolução das características da população ao longo do tempo;
identificar áreas de investimentos prioritários em saúde, educação, habitação, transportes, energia e programas de assistência a crianças, jovens e idosos;
selecionar locais que necessitam de programas de estímulo ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social;
fornecer referências para as projeções populacionais com base nas quais é definida a representação política no País, indicando o número de deputados federais, deputados estaduais e vereadores de cada estado e município; e
fornecer subsídios ao Tribunal de Contas da União para o estabelecimento das cotas do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios;
Receba bem o recenseador. Ele vai ser completamente imparcial, pois foi treinado para agir com ética, empatia, respeito às diferenças.
Atenda e responda às perguntas, elas serão tratadas com confidencialidade e nenhuma informação é cruzada com dados de outros órgãos para prejudicar os brasileiros, independentemente de classe social. Vamos colaborar para um país melhor!
Recife, 20 de Agosto de 2022.
